• Ana Beatriz

Políticas anticapitalistas em tempos de COVID-19

Atualizado: Jun 17

Quando, em janeiro de 2020, surgiu a notícia do primeiro caso de coronavírus na China, soube-se imediatamente que futuros bloqueios ou rupturas no fluxo do capital resultariam em desvalorizações, e, consequentemente, em grandes crises. O sistema capitalista, que já está com sua saúde delicada, não consegue mais enfrentar e absorver os enormes impactos gerados por uma pandemia inevitável, pois como foi apontado por Karl Marx, a desvalorização não ocorre porque as coisas não podem ser vendidas, mas porque não podem ser vendidas a tempo.


As ações do capitalismo vão contra as forças evolutivas autônomas da natureza, modificando e remodelando as condições ambientais. Desse ponto de vista, não existe um desastre natural, os vírus se mutam o tempo todo, mas são as ações humanas que irão ditar o seu impacto. As condições que fornecem uma rápida transmissão entre os corpos podem variar muito, como por exemplo: populações com alta densidade, as formas como as pessoas interagem umas com as outras, se movem, disciplinam a higiene pessoal, ou até mesmo o modo de funcionamento intensivo e abusivo do fornecimento de alimentos.


Embora tenha havido uma desaceleração nos mercados financeiros mundiais, levou pouco tempo para que esses voltassem ao funcionamento rotineiro. O mundo estava enxergando o coronavírus como uma repetição da SARS, que apesar de ser uma doença com alta taxa de mortalidade, foi relativamente fácil de conter. De aí em diante, os países começaram a tratar como se o novo vírus fosse problema exclusivo da China, disseminando preconceitos xenófobos. Quarenta anos de neoliberalismo nas Américas e na Europa, deixaram os países totalmente despreparados para enfrentar crises de saúde pública, apesar de os riscos anteriores da SARS e do Ebola terem fornecido avisos e lições importantes do que precisaria ser feito. Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, as cadeias de abastecimento se diversificam, ao mesmo tempo em que se avança para formas de produção menos intensivas de mão-de-obra, e se aumenta a dependência de produção inteligente-artificial. A substituição das antigas cadeias produtivas implica demissão de grande parte dos assalariados, até mesmo dos trabalhadores uberizados, que já eram por si só precarizados, e agora estão sendo dispensados sem nenhum tipo de apoio.


As forças de trabalho foram socializadas para aprenderem a se comportar como bons sujeitos neoliberais, colocando a culpa de todas as coisas ruins em Deus, ou em si mesmos, mas nunca cogitar que o capitalismo é o problema. Agora, vendo a forma como a pandemia da COVID-19 está sendo enfrentada, esses sujeitos neoliberais começam a perceber que há algo de muito errado no sistema capitalista.




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